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O mestre e o aprendiz

Nasci e vivi boa parte da minha infância no morro de Mangueira, mais precisamente na localidade conhecida como “Olaria”, que apesar de ficar do ladinho direito da quadra, é muito pouco falada e quase nunca citada nas musicas e sambas que conhecemos, muito provavelmente por ter como vizinho o famoso “buraco quente”. Mas, pra defender o “meu lugar”, sempre cito que foi lá que morou o falecido Tio Jair, uma das pessoas mais queridas que a Mangueira já teve e sua casa ficava quase em frente à casa do maior mestre-sala de todos os tempos, o grande Mestre Delegado, que tinha como vizinho um dos mais antigos presidentes da Mangueira, o Seu Chico Porrão, casa esta que tive o prazer de freqüentar e foi onde comecei a curtir os ensaios da Mangueira, ainda que de forma indireta e vou explicar por que: A casa de Seu Chico e a de Mestre Delegado são vizinhas “de parede” com o Palácio do Samba e na época, o muro era baixinho e de cima de um jirau estrategicamente colocado ali, curtia-se muito bem o samba e como meus pais são amigos de infância das filhas de Seu Chico, e eu era pequeno demais pra ficar na quadra, íamos todos os sábados pra lá. Eu tinha os meus quatro ou cinco anos e passava a noite inteira curtindo:

“Quero sim, mais um pouquinho de inspiração
Sempre quando chove tem goteira
O meu barraco é o mais pobre de Mangueira
Irei com o coração ferido
Serei pai deles
Mas não serei seu marido
Eu sou Mangueira sim
Mangueira sim sou eu
Não quero ouvir ninguém dizer
Que é muito mais Mangueira do que eu
Madeira de dar em doido é jequitibá
Deixa a Mangueira passar”

E muitos outros sambas de quadra que sabíamos de cor, tanto quanto os sambas de enredo. Pude ver de perto feras como Zagaia, Comprido, Pelado, Rubens, Darcy, Dirceu e Jurandir (esses dois últimos poderiam ter sido a principal voz da escola, caso a Mangueira não tivesse Jamelão), e muitos outros grandes nomes que a memória teima em não me revelar. E foi neste tempo também que se iniciou um carinho especial por um setor que, para mim, é uma escola à parte: A bateria. Cresci ouvindo esta bateria, tenho um carinho, um amor diferenciado do restante da escola, é difícil explicar, mas é assim que me sinto. Aquela batida única, que faz o interior da gente tremer, me fascinou desde pequeno, só que por eu ser muito novo, minha mãe vetava qualquer tentativa de fazer parte dela e isso me revoltava, até porque eu aprendia com os colegas e me saía bem! Cheguei a fugir uma vez pra tocar na bateria, mas tomei uma surra que nem gosto de lembrar… é porque naquela época havia a história de que só o pessoal da marginalidade tocava e aí, já viu... eu tava fora.

Dois anos depois, saímos do morro e viemos pra Jacarepaguá... mas continuamos a ir sempre lá ver os parentes e amigos, e claro, à quadra era local certo sábado à noite e eu me convenci de que não era minha sina ser da bateria de corpo, mas sim de alma. Acompanhava os ensaios, via tudo, sempre no meu canto, e me acostumei a ver a bateria de Mestre Waldomiro José Pimenta, o Seu “Waldimiro”, como se fala até hoje no morro. Ele era um gênio, que por cinqüenta anos comandou e deu personalidade única àquela orquestra. Cuidava de cada instrumento, um por um, a afinação era com ele e por falar em afinação, o homem tinha um ouvido impressionante, pois às vezes estava de costas pra bateria e mesmo assim, identificava se alguém saísse do ritmo, e se isso acontecesse, coitado da vítima, pois saía da bateria levando “baquetadas” na cabeça (aliás, confesso que este foi um dos motivos que me levaram a não tentar entrar na bateria mais tarde. Ainda jovem, eu tinha pavor só de pensar em ser expulso pelo mestre um dia...). Mestre Waldimiro colecionou notas 10 no seu caminho e formou uma grande geração de ritmistas, como Neném Cotó, Taranta, Ruço, Zé Campos, Alcir, Birinha, Ivo Meirelles e dentre estes, Um rapaz, que desde criança repetia os gestos do mestre e “muito de vez em quando” tinha a oportunidade de comandar a bateria em alguns sambas durante o ensaio. Mas o rapaz de cabelos “Black Power” dava conta do recado, pra orgulho do mestre, que tinha a certeza cada vez maior de que ali estaria o seu sucessor...

Com o passar do tempo, Seu Waldimiro começava a falar em parar, mas ninguém em Mangueira se preocupava com sucessão. Em nossas cabeças, o Mestre ficaria lá pra sempre, com seu andar característico (ele tinha um problema em uma das pernas), chapeuzinho na cabeça e sua baqueta na mão comandando a sua “batiria”, com “i” mesmo, pois era assim que ele dizia.

Porém, Deus resolveu reforçar a bateria lá de cima e convidou o nosso comandante, que nos deixou em um triste dia de Junho de 1983. E agora? Como vai ser sem ele? Quem assume? E antes que o desespero nos tomasse, o nome que já estava há tempos sendo preparado surgiu: Ximbico. E foi assim que a bateria se preparou para o carnaval de 1984. Conta a lenda de que antes de morrer, Mestre Waldomiro teria dito a Ximbico: “quando eu morrer, no dia do desfile, vá ao cemitério e acenda uma vela pra mim, que eu vou estar lá com você na avenida”. Se foi verdade, eu não sei, só sei que a bateria teve um papel fundamental naquele ano maravilhoso, o ano do supercampeonato, onde ela “foi e voltou”, tocando maravilhosamente por quase três horas seguidas, algo inédito em desfiles oficiais.

Ximbico foi aprovado e manteve a certeza de que a bateria continuava em boas mãos, porém, nem sempre o relacionamento dele com os setores da escola foi de calmaria. Seu temperamento forte, o levava a entrar em rota de colisão às vezes, mas seu comando na bateria era incontestável. Foi assim nos anos seguintes, mantendo a cadência, mantendo o trabalho do mestre até o desfile de 1987, onde, segundo dizem, uma desavença com respeito ao posicionamento de alguns instrumentos, teria levado Ximbico a abandonar o comando da bateria ali, no primeiro recuo, minutos antes de Jamelão começar a cantar o samba enredo.

Ximbico deixou o comando pra não mais voltar. Deixou terminar ali uma história que parecia que iria ser bem mais longa, mas quem somos nós pra entender o destino? Taranta assumiu ainda na avenida, ajudou a Mangueira a conquistar mais um caneco e começou a sua saga no comando da nossa bateria, mas isso já é outra história…


Carlos Oliveira (Mumu)
(Publicado originalmente no site Estação Primeira.ORG (http://www.estacaoprimeira.org/))
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