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Mangueira: a arte de cantar, sambar e chorar

Não era minha intenção de riscar nada sobre Mangueira. Ocorre que esse é o mês justamente que ela emplaca mais um tempo. Manda então a boa ética profissional, que nenhum cronista de samba que se preza pode ignorar a data da fundação de uma das maiores academias de samba deste planeta chamado Brasil.

A Mangueira está emplacando oito ponto quatro de uma existência, onde foram tantos títulos e glória que chega ser difícil para este velho e sofrido mangueirense enumerá-los corretamente e cronologicamente falando.

Deixo para outra oportunidade riscar algo sobre o lado político. Isso porque em Mangueira rola uma "guerra" pelo poder, que em nada vai ajudar á chegada da escola ao cobiçado caneco. A coisa está mais do que nebulosa por lá. O certo seria compor - se uma grande união, para que a velha Manga possa voltar aos píncaros da glória.

É claro, que em caso de acontecer mesmo á eleição no dia 28/04 (data do aniversário da escola), o JCN já tem o seu candidato. E como não sou dado a rodeios, maquiagens ou subterfúgios, pretendo declarar pessoalmente, o meu voto para o meu preferido e sufragado na urna.

Abrindo o meu velho baú descobri que Mangueira é a escola de samba mais cantada pelos muitos cancioneiros da nossa MPB, de fora e dentro da escola. Foram tantos que assim o fizeram, que escolher esse ou aquele foi uma tarefa complicada. Músicas de todos os estilos, e todos e variados gostos. Todas ligadas na rica história mangueirense, que hoje, só nos traz infinitas e saudosas recordações. As histórias roladas em Mangueira são tantas, que somente um livro com várias e várias paginas poderia abrigar suas lendas, fatos, verdades e mentiras onde o samba, quente e gostoso, é sempre a marca registrada durante todos esses anos.

Houve também tempo em que a escola viveu épocas de pindaíbas. Numa delas chegou ser ridicularizada pelas demais escolas, sob alegação de que a verde-rosa usava fantasias do ano anterior nos desfiles dos anos corrente.

Só conhecendo bem sua história posso eu lembrar que essa acusação, na verdade, era um tremendo debique e de mau gosto, e provocação por parte das chamadas co-irmãs.

Compositores populares entraram nessa pendenga. Herivelto Martins, (mangueirense confesso), nos momentos em que deixava de lado as brigas com a grande Dalva de Oliveira, compôs antológico "Lá em Mangueira’’, cuja letra e a melodia, livre e espontânea, são primores da MPB, e até hoje deixa os mangueirenses extasiados.

Essa música diz no exato aquilo que Paulinho da Viola e Hermínio Belo de Carvalho riscaram anos mais tarde no samba. "Sei Lá Mangueira", que seguiu a mesma trilha daquilo que Herivelto Martins riscou em 1947.E Herivelto riscou: "Lá em Mangueira/aprendi a sapatear/Lá Mangueira/ Aprendi a sambar/É aprendi que o samba tem o seu lugar/ Foi lá no Morro/ Com luar e um barracão/ Lá eu gostei de alguém/ Que me tratou bem/ Eu dei meu coração/ No morro à gente/ Leva a vida que quer/ No morro gente, gostei de uma alguém/ Quando a gente/Deixa o Morro e vai embora/ Quase sempre chora".

A paixão de Herivelto Martins pela Mangueira ou pela cabrocha, a quem lhe deu o coração, sem que a Dalva de Oliveira soubesse, fez com que ainda riscasse assim: "Tenho saudades da Mangueira/ Daquele tempo/ Em que batucava por lá/ Tenho saudade do terreiro da escola/ Eu sou do tempo do Cartola/ O que há?/ Eu sou do tempo em que malandro não descia/ Mas a polícia no morro também não subia..."

A Mangueira até hoje deve a Herivelto Martins um enredo - exaltação em sua homenagem. Somente por causa da sinceridade e clareza dessas simplórias, mas definitivas músicas.

Ainda ano de 1947, os compositores Aldo Cabral e Benedito Lacerda riscaram um samba, senão despretensioso, como também bastante sentimental e emotivo.Senão vejamos: " Em Mangueira na hora da minha despedida/ Todo mundo chorou, todo mundo chorou/ Foi pra mim à maior de minha emoção vida/ Porque em Mangueira o meu coração ficou/ Quis falar aos amigos que me abraçaram/ O soluço. porém. minha embargaram/ E os mesmos olhos na minha tristeza sem fim/ No meu silêncio falaram por mim/ A maior emoção que tem nesta vida/ É a dor que assinalava uma triste partida/E foi esta emoção que também já senti/ E nunca mais de Mangueira esqueci".

Talvez tenha sido por inspiração em tais poesias que fez aflorar na massa encefálica de Paulinho da Viola e Hermínio Belo de Carvalho uma luz divina para juntos comporem o antológico " Sei lá Mangueira: "Visto assim do alto/ Mas parece um céu no chão/ Sei lá.../ Em Mangueira a poesia fez um mar, se alastrou/ E a beleza do lugar, pra se entender/Tem que se achar/Que a vida não é só isso que vê/E um pouco mais/Que os olhos não conseguem perceber/ E as mãos não ousam tocar/ E os pés recusam pisar/ Sei lá não sei.../ Sei lá não sei.../ Não sei toda beleza de que lhes falo/Sai tão somente do meu coração/Em Mangueira poesia/ Num sobe e desce constante/Anda descalça ensinando?Um modo novo de a gente viver/Sei lá não sei, sei lá não sei não/ A Mangueira é tão grande/ Que nem cabe explicação".

Nos tempos da pindaíba, um compositor, dos melhores da nossa MPB, autor de um montão de sucessos de Carnaval e fora dele, chamado Pedro Caetano riscou um samba que em muito mexeu com os brios do mangueirense. Pedro Caetano, que era paulista da cidade de Bananal, compôs uma música afirmando que a Mangueira só vivia de cartaz: "Mangueira/ Onde é que estão os tamborins, ó nêga?/ Viver somente de cartaz não chega/Põe as pastoras na Avenida, Mangueira, querida/ Antigamente havia grande escola/Lindos sambas de Cartola/ Um sucesso de Mangueira/ Mas hoje o silêncio é profundo,/ E por nada deste mundo/ Eu consigo ouvir Mangueira".

O fato é que houve uma época que "cantar" Mangueira era garantia de sucesso certo. E, foi como se contra dizendo o grande Pedro Caetano, que os compositores Mirabeau e Milton de Oliveira dedicaram à Estação Primeira o lindo samba" Fala Mangueira, uma espécie de amor declarado: " Fala Mangueira, fala / Mostra a força de sua tradição/ Com licença da Portela/ Favela Mangueira mora no meu coração/ Suas cabrochas gingando/ seu tamborim repicando/ É monumental/ Estou falando da Mangueira/ A velha Mangueira tradicional". Os compositores de Mangueira estavam quietos. Mas não adormecidos. Tanto que se armaram para fazer frente aos absurdos que diziam que a escola só vivia de cartaz ou aplaudir os sambas emotivos de exaltação que colocavam á velha Manga nos píncaros.

Mestre Cartola. como de hábito, saiu na frente e dedicou a todos coisas de real valor poético e lírico. Com uma simples frase em tom de humildade, Cartola perguntou lá do alto da colina com muita propriedade de um grande mestre: "Habitada por gente simples e tão pobre/ Que só tem o sol que a todos cobre/ Como podes Mangueira, cantar?/País então saiba que não desejamos mais nada/ A noite tem a lua prateada/ Silenciosa ouve as nossas canções/Tem lá no alto um cruzeiro/onde fazemos nossas orações/ e temos orgulho de ser os primeiros campeões/Eu digo e afirmo que a felicidade aqui mora/ E as escolas até choram/ invejando a tua posição/ Minha Mangueira essa sala de recepção/Aqui se abraça inimigo/ Como se fosse irmão’’.

Da humildade á contestação, Mestre Cartola colocou seu "carro da rua". Agora já sem a modéstia de antes, ele assim cantou " Mangueira é muito grande/ Dá galhos para todo lado/ E os frutos que dá/ Todos são aproveitados/ Vem gente de muito longe/ Para vê se é verdade o que ouvem dizer/ Em vêm artistas/ Do exterior, até turistas/ Só para ver o que a Mangueira/ Sambar como nossas cabrochas ninguém/ A Mangueira, minha gente, dá galhos para todo lado/ E oferece a semente". O fato é que Mestre Cartola quis mostrar ao mundo uma Mangueira forte, varonil e fomentadora do samba em sua essência. Não aquilo que o Pedro Caetano cantou. Tocados pela magia da poesia do mestre, outros compositores da Mangueira também saíram em defesa do pavilhão verde- e- rosa. Jorge "Zagaia, dono de um incrível vozeirão, tratou de mostrar a sua glosa:" A Mangueira/ não morreu/Nem morrerá. Isso não acontecerá/ Tem o seu nome na história/ Mangueira tu és um cenário/Coberto de glória... "

No auge da euforia, Seu Zé Ramos chegou considerar a Mangueira como a capital samba, e assim cantou: " Chegou à capital do samba/ Dando boa noite com alegria/ Viemos apresentar/O que tem/ Mocidade, samba e alegria/Nossas baianas com seus colares/e guias..."

Este mesmo Seu Zé Ramos foi mais além ao lançar o seu "Jequitibá do Samba": "Mangueira que dá em doido é jequitibá/ Deixa a Mangueira passar/ Balança cabrocha/Embalança Mangueira/ Õ, ô, ô, ô, ô, ô, o jequitibá do samba chegou/ Mangueira é uma floresta de sambistas/ Onde o jequitibá nasceu/ Veio o fogo e queimou/ veio o vento e tombou/ o machado e jequitibá ficou..."

Quase todos os compositores cantaram Mangueira como amor e devoção, Uns mais outros menos. Um certo Osvaldo Vitalino de Oliveira, que não foi outro senão o notável Padeirinho, fez a sua parte cantando assim:" Sabem que eu sou? Eu sou a Mangueira/ Mais conhecida como Estação Primeira/ Na avenida sambo pra cidade/ Seja onde for/ Todos sabem que sou madeira/ Quando eu chego lá na avenida/ Sou aplaudida porque sou a maioral/ Entre Todas sou a mais querida/ E quem duvida venha ver meu carnaval"

Mestre Gato ( Eu agora sou feliz) não deixou por menos e assim se expressou: "Quem chegou foi a Mangueira/ A rainha do carnaval / Eu estou chegando agora/ Com meu povo tradicional/ Podem falar de mim a quem quiser/ Eu sou a Mangueira estou de pé..."

A dupla Comprido e Pelado não fez por menos mandando assim na antiga quadra do E. C. Cerâmica: "Estamos aí/ Mangueira tem fortes raízes/ E não pode cair..."

Até mesmo quando o inteiro teor de um samba era o amor, o compositor mangueirense encontrava um jeito para incluir Mangueira na sua inspiração. Foi isso que fez Jurandir, o popular Dante da Candelária, ao lançar ainda no início dos anos 60, o seu inesquecível Palácio Encantando: "Meu palácio encantando/Meu barracão de madeira em Mangueira/ E essa vida que tanto amo/Dedico a minha companheira/ Sempre com teus olhos tristonhos /A me esperar como em sonhos/Eu encontro em Mangueira/ Sou feliz onde vivo/ Em Mangueira/ a vida é assim..."

Mas um dia essa companheira tão declamada pelo Jurandir virou a cabeça e foi embora. Ele então, no auge de sua frustração amorosa e no mesmo ripe assim cantou: "Minha companheira foi embora/ A solidão veio comigo morar/Já não tenho mais os lindos sonhos/ Nem ninguém a me esperar/ Quando me lembro/ Dos seus olhos tristonhos/ Tenho até vontade de chorar/ Já não me dá mais prazer contemplar o luar/ Pelos buracos do teto meu barracão? Hoje estou magoado e ferido no coração/ E até essa vida que tanto amo, sinto que está chegando ao fim/ Meu barracão de madeira lá em Mangueira/ Sem ela não é nada para mim..."

O compositor Mauro Pereira era morador na antiga Favela do Esqueleto, depois transferida para hoje onde é a famosa Vila Kennedy. Mauro teve pouco tempo de Ala de Compositores, mas suficiente para nos legar uma das mais belas paginas do cancioneiro da escola. Mauro Pereira cantou assim, lá por volta também da década de 60: "Verde rosa pra mim/Vou sambar em Mangueira/ Verde rosa pra todos nós/Pedaço da nossa bandeira/ Ó Rosa/Venha ver teu samba/Em homenagem/ a Mangueira/Terra de gente bamba..."

O poeta mangueirense era tão genial que até na morte ele encontrava inspiração para compor coisas da mais alta expressão: Pelo menos foi o que fez o rabugento, mas competente Nélson Cavaquinho no seu "Pranto de Poeta". Observem a sua genialidade e sinceridade: " Em Mangueira/Quando morre/ Um poeta/ Todos choram/Vivo tranquilo/ Em Mangueira porque/Sei quem alguém/ Há de chorar/Quando eu morrer/ Mas o pranto em Mangueira/ É tão diferente/É um pranto sem lenço/Que alegra a gente/Hei de ter alguém/ Pra chorar por mim/ através de um pandeiro /Ou de uma tamborim".

No final dos anos 60 resolveram fazer um concurso em Mangueira para a escolha do samba-hino da escola. Várias foram as inscrições. Veio gente de todo o lugar. De Caxias surgiu um tal de Hélio Cabral, que alvoroçou a quadra com um samba simples, porém de um enorme conteúdo poético. Na sua simplicidade, Hélio Cabral oriundo da ES Cartolinhas de Caxias, onde acabara de emplacar o samba enredo" Benfeitores da Humanidade, (mais tarde gravado por Jamelão e Martinho Sempre da Vila) cantou e o morro ouviu, gostou e aplaudiu: "Mangueira tem um grande plantio de bambas/ Que dá o fruto/ Saboroso chamado samba/ Que é gostoso e faz bem/ Eis a razão porque de para ano a Estação Primeira evolui/ Sirva-se á vontade/ Quem faz o convite é a grande campeã/ Mangueira não pode parar/ Mangueira não pode falhar/ Mangueira faz hoje o sambista de amanhã..."

Só no que concurso estava a também a dupla Aloísio Augusto da Costa e Enéas Brites, dois compositores originalmente do morro. A Comissão julgadora não teve para onde correr. E sem pestanejar consagrou o samba da dupla do morro como samba hino da Mangueira: "Mangueira teu cenário é uma beleza / que a natureza criou/ O morro com seus barracões de zinco/ Quando amanhece que esplendor/ Todo mundo te conhece ao longe/ Pelo som de teus tamborins se o rufar de teus tambores/ Chegou oh, oh, a Mangueira chegou oh, oh/ Mangueira teu passado de glória/ Está gravado ma história/ É verde e rosa a cor da tua bandeira/ Pra mostrar a essa gente/ Que o samba é lá em Mangueira".

Depois de ser considerada como rainha, a mais querida, palácio encantando, capital do samba, jequitibá do samba, e tudo mais, Mangueira chorou quando Mestre Cartola assim se despediu da escola: "Todo o tempo que eu viver/ Só me fascina você,/ Mangueira/ Guerreei na juventude/ Fiz por você mo que pude,/ Mangueira/ Continuam nossas lutas/Podam-se os galhos/Colhem-se as frutas/ e Outra vez se semeia/ e no fim desse labor/Surge outro compositor/ Com o mesmo sangue na veia/Sonhava desde menino/ Tinha um desejo felino/ De contar toda a tua história/ Este sonho realizei/ Um dia a lira empunhei/ E cantei todas tuas glórias/ Perdoe-me a comparação/ Mas fiz uma transfusão/Eis que Jesus me premia/ Surge outro compositor/ Jovem de grande valor/ Com o mesmo sangue na veia".

Em Mangueira ainda é assim. Todos cantam, sambam e choram ao mesmo tempo. É isso que faço agora comemorando esses 84 anos dos quais vivi muito mais do que a metade.

Parabéns, Mangueira.


José Carlos Netto
(Publicado originalmente no site SRZD)
Mangueirense, José Carlos Netto foi por muitos anos diretor de harmonia da Estação Primeira de Mangueira.
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