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'30 anos do Sambódromo': Vem ouvir de novo o meu cantar...

Sim gente, isso é um samba da Mangueira. E foi neste primeiro verso que o meu coração tomou sua decisão. Estava lá, vestido na combinação mais cafona, linda e elegante que existe: o verde e rosa.

Outros versos se seguiram até que o Balancê tomou conta da recém inaugurada Sapucaí. Concreto cheirando a novo assim como aquele amor que acabara de nascer. "Sim meu pai, vou lhe acompanhar, agora entendo toda a sua paixão pela escola, toda a sua ansiedade para a chegada do LP e toda a sua empolgação ao colocar a agulha direto na faixa da Estação Primeira." Meu pai é mangueirense a ponto de nunca ter saído na escola.

Tá bom, parece até contradição, mas não é. Ele afirmava que seu coração não aguentaria um desfile em sua escola e, assim, partiu para outros desfiles, em outras agremiações, desde que nenhuma delas atrapalhasse o momento de sentar e assistir a sua verdadeira paixão flutuar pela avenida.

A Mangueira não passa, flutua mesmo. É a escola que sempre começa campeã e, infelizmente, teima em perder pontos no caminho. Pontos irrelevantes, pois ela é sempre a maior no auge dessa nossa "arrogância do bem" que todo mangueirense tem.

Pois foi em 1984 que conheci a arte de um desfile de escola de samba, a arte de flutuar. Eu e a "passarela do samba" fizemos nossa estreia no mesmo ano. E que estreia foi a minha!!

Se houvesse alguma chance de dúvida sobre a minha escolha, ela fugiria envergonhada ao presenciar uma escola subir até a Apoteose e retornar levando com ela um mar de gente, um verdadeiro bloco, lindo, bem arrumado, chique mas mostrando a essência do que é o carnaval. A nova praça com o símbolo que ganhou o mundo foi o ponto de retorno de toda uma nação.

Pronto, não faltava mais nada. Eu estava entregue, com o coração preparado e blindado contra péssimas administrações, desfiles fracos, renascimentos e títulos.

A paixão se tornou tão intensa, que ficaram insuficientes os vinte e poucos minutos que passava na avenida. Queria algo mais e, então, comecei a escrever sambas, a viver o dia a dia da escola, a personificar os nomes que alimentavam meus sonhos, tudo amarrado aqueles momentos vividos em mil novecentos e oitenta e quatro. E foi assim, perdendo e aprendendo, o amor aumentando até que vinte anos depois, em 2004, realizei o sonho dos meus sonhos. Ouvi, da boca do presidente Alvinho, o meu nome na parceria vencedora. Foi um dos últimos sambas da vida de Jamelão e vi a avenida, lotada de bandeiras, cantar o samba da Mangueira que levava o meu nome na composição.

Um filme passou naquele momento. Voltaram os LPs, os sambas, a expectativa, aquele sentimento de vários verões que antecediam a chegada da nova safra e é claro que meu pai não desfilou.

Seria demais, ainda mais puxado para o seu coração. Só pude vê-lo por um rápido momento, com lágrimas nos olhos, sentado numa frisa, como que revendo o mesmo filme do que eu. Filme que começou em 1984.

Naquele momento, assim como vinte anos antes, tive a certeza de que as rosas nunca precisariam falar.


Cadu Zugliani
Jornalista, trabalha no Sportv há 5 anos e na TV Globo há 18. Compositor campeão da Mangueira em 2004.
(Publicado originalmente no site SZRD)
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