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Nelson Sargento é um samba de quadra da Mangueira

Entro num boteco pra afogar a alma, as garrafas então batem palmas, me embriago e elas pedem bis.

Não sei ao certo quando me apaixonei de vez pelo samba. Mas lembro bem do primeiro sambista que me chamou a atenção pessoalmente. Talvez não apenas pela sua música genial, mas pela sua capacidade de tocar a minha alma ainda desprovida de escudos, pré-conceitos, despeitos e covardias afins. Eu tinha meus 19, 20 anos. Ele, um jovem de 65. Hoje eu tenho 44 e ele completa 90 na próxima sexta. Há mais ou menos um mês, no lançamento do disco comemorativo dos 80 anos de um outro menino, Monarco, reencontrei Nelson Mattos, o Sargento, na quadra da Portela. Levantei-me da mesa em que estava e fui cumprimentar o amigo. Ele só me reconheceu quando cheguei perto. Disse: “Não tenho te visto, meu filho. Como vão as coisas? E seus pais, estão bem?”.

Nelson estava acompanhado de Agenor de Oliveira, seu parceiro musical e fiel escudeiro dos últimos, sei lá, 15 anos. Na semana passada, encontrei novamente o Agenor, desta vez em Laranjeiras, e este me disse que ainda estava tentando fechar um show na Mangueira para celebrar a data. Nelson, em sua eterna juventude, queria fazer um bailão, com um naipe de sopros, botar o povo para dançar. É claro que não faltarão músicos e cantores de todas as procedências para reverenciar e dar aquele abraço apertado na figura mais doce do samba.

De todas as atividades que exerce e exerceu na vida, compositor, cantor, escritor, pesquisador, a que mais interferiu em sua música, sem dúvida, foi a de artista plástico. Nelson, que começou a vida pintando paredes, transformou o ofício em arte naïf,retratando o morro e a cidade, colorindo a sua vivência, nem sempre florida, em Mangueira. A obra musical do sambista é, assim como seus quadros, repleta de imagens deliciosas.

É dele o hino de resistência do sambista, “Agoniza mas não morre”. O morro para Nelson é o “Encanto da paisagem, progresso lento e primário, imponente no cenário, inspiração da natureza”. Que maravilha! Só ele pode juntar composições de Cartola para homenagear de forma sublime o amigo que partiu: “Só um Peito Vazio descobre que o Mundo É Um Moinho/ E quando isso Acontece, Alegria vai embora”.

Mas Nelson também é dono de um humor finíssimo, repleto de malandragem. É isso, o nosso Sargento é um clássico malandro à moda antiga. Educado, sedutor, inteligente, engraçado, dono de uma lábia insuperável. E de sua mente genial surgem imagens hilariantes como a da canção ‘De Boteco em Boteco’, que ele um dia me confessou nem gostar tanto: “Entro num boteco pra afogar a alma, as garrafas então batem palmas, me embriago e elas pedem bis”.

Enfim, o menino que passou parte da infância na Tijuca e no Morro do Salgueiro até ser adotado por seu pai de consideração e de samba, Alfredo Português, chega, esta semana, a uma idade que poucos sonham alcançar. Mas o tempo não parece ser um problema para ele. Certa vez, em uma de nossas muitas conversas, ele me disse que as pessoas não envelhecem, o tempo é que passa rápido. Ou seja, nas entrelinhas quis me dizer que seu corpo não correspondia à jovialidade de sua cabeça, à contemporaneidade de sua poesia, de sua visão das coisas.

É assim que continuo vendo o meu querido amigo Nelson Sargento, um menino de 90 anos. Não sei se a Mangueira vai cumprir o seu papel e abrir sua quadra para o baile do Sargento, estender um tapete vermelho para a sua própria história, para a sua mais alta e respeitada patente. Mas, desde já, deixo aqui o meu abraço mais carinhoso. Como já disseram Moacyr Luz e Aldir Blanc, “Ele é um samba de quadra da Mangueira que Deus letrou”.


João Pimentel
João Pimeitel é jornalista e crítico musical.
(Publicado originalmente no site do jornal O Dia)
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