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Cartola: a elegância desce a Mangueira para modernizar o samba carioca

“Alvorada lá no morro que beleza/ Ninguém chora, não há tristeza/ Ninguém sente dissabor...”

Com os versos de “Alvorada”, Angenor de Oliveira, nascido no bairro do Catete em 11 de outubro de 1908, imortalizou o Morro da Mangueira, para onde se mudou aos 11 anos e viveu grande parte de sua vida. O apelido Cartola surgiu ao trabalhar como pedreiro, porque sempre usava um chapéu para impedir que sua cabeça ficasse suja pelo cimento da obra. O compositor é considerado um dos nomes fundadores da moderna música brasileira, e sua obra foi imprescindível para a modernização do samba, especialmente por seu estilo refinado e elegante.

Junto com Carlos Cachaça, Cartola fundou, em 28 de abril de 1928, o Grêmio Recreativo Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira, oriunda do antigo Bloco dos Arengueiros. Cartola escolheu o nome da nova escola e suas cores, que foram inspiradas no verde, branco e grená do Fluminense, seu time de coração. Foi presidente da agremiação, da ala dos compositores e diretor de harmonia até o fim da década de 30, levando seu nome para além dos limites da escola.

Cartola tornou-se conhecido fora da Mangueira após ter vendido o samba “Que infeliz sorte” para Mário Reis, em 1931, que foi gravado por Francisco Alves. Outros sambas foram vendidos para o Rei da Voz, como Chico era chamado, que ficava com a renda dos discos mas mantinha a autoria para Cartola, da qual ele não abria mão. Em maio de 1932, Carmen Miranda, então a maior cantora do país, gravou “Tenho um novo amor”.

Com Paulo da Portela, Cartola criou, em 1940, o programa de rádio A Voz do Morro, unindo os fundadores das duas maiores escolas de samba do Rio de Janeiro, Mangueira e Portela, onde cantavam sambas inéditos. No ano seguinte, o Conjunto Carioca, unindo Cartola, Paulo da Portela e Heitor dos Prazeres, se apresentou durante um mês em São Paulo, na rádio Cosmos. Depois dessa reunião de músicos, Cartola sumiu do meio musical: pensavam até que estivesse morrido e chegou a receber homenagens “póstumas”.

Em entrevista ao GLOBO, publicada em 16 de abril de 1976, Cartola primeiro desconversou sobre essa fase fora da mídia e da música, mas depois esclareceu:

— Eu estava com uns 30 e tantos anos. Trabalhava como pedreiro e compunha meus sambas. De repente, veio a meningite. Fiquei dois ou três dias em estado de coma, e depois passei um ano e meio andando de muletas, sem firmeza nas pernas. Foi uma fase difícil. Eu nunca fui chegado a viver socado em rádio ou televisão. Nunca fui de procurar cantor pra pedir gravação das minhas músicas. Acho que quando a pessoa grava sem sentir, não sai bom.

Somente em 1956 o cronista Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta, o redescobriu trabalhando como lavador de carros e vigia numa garagem em Ipanema e o levou para a rádio Mayrink Veiga. A partir de 1961, já morando com Eusébia Silva do Nascimento, a Zica, a casa deles no morro da Mangueira passou a ser ponto de encontro de sambistas. E, em 1964, inaugurou o mítico Zicartola, restaurante na Rua da Carioca famoso pela reunião da boa comida da Zica e dos músicos de diferentes vertentes, indo de sambistas do morro a famosos nomes da MPB.

Por lá circularam Zé Kéti, Nelson Cavaquinho, Ismael Silva, João do Vale, Ciro Monteiro, Dorival Caymmi, Elizeth Cardoso, Moreira da Silva, Araci de Almeida, Heitor dos Prazeres, Ataulfo Alves e muitos outros. Em reportagem no GLOBO de 11 de outubro de 1978, por ocasião dos 70 anos de Cartola, o jornalista Sergio Cabral afirmou que “dois nomes praticamente explodiram no Zicartola: Clementina de Jesus e Paulinho da Viola". E o clima musical da casa acabou por inspirar dois importantes musicais de teatro: “Opinião”, de Oduvaldo Viana Filho, Paulo Pontes e Armando Costa, e “Rosa de Ouro”, de Hermínio Bello de Carvalho, completava.

O Zicartola fez história na cidade e funcionou até 1974. O primeiro disco do compositor, aclamado pela crítica especializada, foi lançado apenas nesse ano, às vésperas de Cartola completar 66 anos. O segundo álbum veio em 1976, contendo a canção mais conhecida do seu repertório, “As rosas não falam”, quando também fez seu primeiro show individual, acompanhado pelo conjunto Galo Preto, no Teatro da Galeria, no Catete. No ano seguinte, lançou o terceiro LP, “Verde que te quero rosa”, igualmente elogiado pelos críticos.

Em 1978, Cartola decidiu sair do morro da Mangueira e partir com Zica para uma casa em Jacarepaguá, em busca de tranquilidade para continuar compondo. Na Mangueira, todos sabiam onde Cartola e Zica moravam, e as visitas de conhecidos e desconhecidos ocorriam a qualquer hora do dia. Cartola ainda lançou um novo álbum em 1979, mesma época em que descobriu um câncer.

Cartola morreu em 30 de novembro de 1980. Seu corpo foi velado na quadra de samba da Mangueira e o cortejo, com o caixão coberto pelas bandeiras da escola e do Fluminense, foi acompanhado por uma multidão e o toque de um surdo. Ao chegar ao Cemitério do Caju, na Região Portuária, cerca de três mil pessoas cantaram “As rosas não falam” e, sob uma chuva de rosas amarelas, brancas e vermelhas, o compositor da Mangueira foi enterrado, conforme O GLOBO noticiou em 2 de dezembro de 1980.


Luciana Barbio
(Publicado originalmente no site do jornal O Globo)
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