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Cartola, dos Arrepiados aos Tempos Idos

Esta semana, no último dia 30 de novembro, fez 35 anos da data em que o Brasil e nossa música popular perderam um criador genial (sinto muito pelo lugar comum, mas fica difícil encontrar outra definição quando se fala de Angenor de Oliveira, o compositor Cartola), nascido no Catete (onde ainda menino já tocava cavaquinho, ao lado do pai, no bloco Arrepiados), com passagem por Laranjeiras (ali estudou até o primário) e criado no Morro de Mangueira – mais carioca impossível.

Foi no endereço mais duradouro de sua vida (mais tarde, artista já famoso, morou também em Jacarepaguá) que Cartola trabalhou como tipógrafo e pedreiro, depois conheceu Carlos Cachaça e caiu no samba, juntamente com a boemia. Fundou bloco (Arengueiros), escola de samba (Estação Primeira de Mangueira), compôs sambas-enredos marcantes e descobriu-se um melodista excepcional, além de letrista dos mais inspirados. Se o estudo fora pouco, a imaginação poética transbordava. É preciso mesmo ser um compositor de “sangue nas veias”, para criar versos como estes:

“Surge a alvorada, folhas a voar / E o inverno do meu tempo começa a brotar, a minar...” Ou estes: “O mundo é um moinho: vai triturar teus sonhos tão mesquinhos / Vai reduzir as ilusões a pó...” Ou ainda: “Linda, no que se apresenta o triste se ausenta / Fez-se a alegria, corra e olhe o céu...”

O resto o Brasil inteiro conhece.

A imensa e vigorosa obra do mestre de Mangueira e do mundo está espalhada pelos poucos discos que ele fez e pelas inúmeras regravações (Paulinho da Viola, Zeca Pagodinho, Beth Carvalho, João Nogueira, Gal Costa, Moacyr Luz...) que ela mereceu. Vale a pena, sempre, ouvir qualquer faixa, escolhida ao acaso. Ou aparecer uma noite de domingo na roda de samba do Bip Bip, em Copacabana, para ver e ouvir Paulinho do Cavaco, Ari Miranda, Flávio Feitosa, Alex, Thibau, Ismael e Chiquinho Genu nos reapresentando, com cheiro de novidade, “Acontece”, “As rosas não falam”, “O mundo é um moinho”, “Sala de recepção”, “Tive sim”, “Divina dama”, “Disfarça e chora”, “Linda”... E, como perguntaria aquele personagem do imortal Chico Anysio, “quer outra”?

Existe um bom documentário sobre ele (“Cartola – música para os olhos”, de Lírio Ferreira e Hilton Lacerda) e também um livro imperdível (“Cartola, os tempos idos”), ótima pesquisa e muito bem escrito por Marília Barbosa e Arthur Oliveira Filho, vencedor de concurso promovido pela Funarte e editado pela instituição três anos após a morte do compositor. Essa joia deve estar esgotada, mas talvez possa ser encontrada em algum sebo ou na própria Funarte. Corram atrás.


Luis Pimentel
Luis Pimentel é jornalista e escritor
(Publicado originalmente no site Acontece na cidade)
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