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‘Quando morrer, descanso. quero viver cansada’

Na parede cor-de-rosa, os ponteiros do relógio insistem em marcar cinco para as 3h. O calendário, estampado com o escudo do Flamengo, mostra os dias e meses de 2013. A foto emoldurada em um porta-retrato exibe a fantasia já esmaecida de nove carnavais atrás. Os detalhes brincam com o tempo, como a dona da casa, na Mangueira. Apelidada de Jovem, Jovelina Silva dos Reis tem 75 anos e é a baiana mais velha da Estação Primeira. Na próxima segunda-feira, quando a verde e rosa encerrar os desfiles, pela primeira vez em mais de cinco décadas ela não deve vestir a fantasia para rodopiar em defesa da escola. O peso da idade e da vestimenta fez com que diretoria e família sugerissem que era hora de parar.

— Não vou botar a baiana, mas vou brincar do mesmo jeito. A ideia é que eu saia no apoio da ala — conta, num discurso pontilhado por lições em frases de efeito. — Quando morrer, eu descanso. Enquanto isso não acontece, quero viver cansada.

A decisão de não vestir bata, pano da costa e saia rodada coincidiu com o ano em que as baianas da Mangueira virão de dourado, representando Santa Bárbara. Pelo sincretismo religioso, ela é Iansã ou Oyá. A divindade guia a homenageada pelo desfile, Maria Bethânia. E Dona Jovem, também filha da senhora dos ventos e das tempestades.

A baiana da Estação Primeira não se abateu. Duas vezes por semana, vai aos ensaios, na quadra e na rua. Desce o morro sempre a pé e sozinha ou, como prefere sublinhar, “na companhia de Deus”. No anoitecer de uma quinta-feira de janeiro, tirou as sandálias douradas de salto médio para vencer a ladeira íngreme em frente à sua casa, iluminada pelos postes recém acionados. De madrugada, após a festa, voltaria igualmente desacompanhada.

— Nada me perturba. Quando me perturba, eu rodo a minha baiana. Ninguém nunca mexe comigo — assegura, explicando que, mesmo depois de dormir às 5h, acorda às 9h, no mais tardar. — Desço bem, mas, para subir, levo horas. Canso, sento, bato papo. Para que correr? Corri tanto nesta vida e não arrumei nada.

A Mangueira é o seu lugar. Outro dia, se perdeu no Boulevard Vinte e Oito de Setembro, em Vila Isabel. Mas aquelas vielas conhece intimamente. Jovelina mora no mesmo terreno desde que nasceu, filha única de operários. Diz que o seu umbigo está enterrado ali. Arriscou as primeiras piruetas no samba ainda na adolescência, pouco depois de começar a trabalhar, aos 12 anos, na Fábrica de Chapéus Mangueira, próximo à Quinta da Boa Vista. Criou os três filhos — a mais nova hoje tem 52 anos — com o salário de empregos em indústrias e casas de família. No morro, erguiam-se os barracões de zinco cantados por Jamelão. Quando a ventania destelhava as casas, os vizinhos acudiam uns aos outros. A quadra da escola de samba era no Buraco Quente. O desfile, na Praça Onze.

Em casa, bandeiras da escola

Hoje Dona Jovem vive sozinha numa casa com quarto único na localidade do Chalé. Nas miudezas, faz sua exaltação particular à Mangueira. Bandeiras da escola repousam na fachada, ao lado de exemplares de comigo-ninguém-pode, e na estante da sala, onde guarda também duas pequenas baianas. Os sambas e pagodes que tocam num pequeno rádio por vezes são interrompidos pelo barulho do trem que passa ali perto. Ou pelo som das gotas que caem do teto castigado por infiltrações.

Metaforicamente, a baiana também viu muitas coisas mudarem de lugar ao longo de sua existência. Espaço de tradição e evocação dos antigos carnavais, a ala das baianas remoçou, num processo associado às vestimentas a cada ano mais pesadas e à cobrança por um ritmo impecável na evolução. Algumas escolas posicionaram o grupo de componentes mais à frente no desfile, numa tentativa de minorar descompassos em caso de atraso.

O carnaval de Dona Jovem

Apelidada de Jovem, Jovelina Silva dos Reis, de 75 anos, é a baiana mais velha da Mangueira. Pela primeira vez, em ao menos cinco décadas, ela não deve vestir a suntuosa fantasia da alaFoto: Daniel Marenco / Agência O Globo

— Hoje tem mais exigência. Os jurados veem até quem está fazendo mímica com a boca e quem está cantando de verdade — afirma Jovelina. — Mas uma coisa não muda: a baiana nunca acaba. É o fervo da escola.

Estes dias que antecedem o carnaval são sempre de ansiedade e empolgação, conta. Tenta imaginar como serão as fantasias. Ao entrar na avenida, não escapa do arrepio. Gira, evolui e canta. Diz que se sente “a presidente”, mesmo sendo “uma pobre coitada”.

— É chão — diz, relativizando os 700 metros da Passarela do Samba. — Quando o desfile acaba, uns procuram o seu rumo, outros vão para o botequim. Eu vou beber, claro.

As biritas — seu gosto é cerveja ou batidinha — são desculpa para ir para a rua e conversar com amigas. Para pouco em casa e diz que quem assume compromissos não pode dispor do seu tempo ao bel-prazer. Mas não reclama.

— Quem se aluga a São Miguel não se senta à hora que quer.


Dandara Tinoco
Julio Maria é repórter e crítico de música do 'Caderno 2' do jornal O Estado de S. Paulo
(Publicado originalmente no site do jornal O Globo)
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