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Com Moisés e Ramsés na Mangueira

Nunca fui jurado de desfiles de escolas de samba - quando convidado fiquei com medo da responsabilidade - mas acabei aceitando o convite da Mangueira para participar do júri para a escolha de seu samba-enredo do carnaval de 2003, embora eu seja Império Serrano. Como resistir à Mangueira que, quando não é a primeira e única, é a segunda escola de todos nós? Além disso, a comissão julgadora era composta por 60 pessoas, a maioria de gente bamba de lá, não havendo o perigo de ignorantes como eu e o Ziraldo comprometermos o resultado. Assim, da última noite de sábado até as cinco horas da manhã de domingo, na lendária quadra da Estação Primeira, ouvimos durante meia hora cada um dos quatro finalistas, selecionados entre mais de 40 concorrentes, cantando o tema "Os Dez Mandamentos - o samba da paz canta a saga da liberdade". O vencedor foi o samba de Marcelo D'Aguiã, Bizuca, Gilson Bernini e Clóvis Pê, cujo belo refrão diz: "Quem plantar a paz vai colher o amor/Um grito forte de liberdade/Na Estação Primeira ecoou".

É uma experiência cansativa, mas empolgante e carregada de expectativas. Você está ali escolhendo o quesito fundamental do desfile. Sem um bom samba a escola fracassa na avenida. Já imaginou você contribuindo para isso? Quando pensava na hipótese tremia, mesmo sabendo que meu voto não seria decisivo, ou pelo menos eu esperava que não fosse.

As regras aqui são diferentes, mas nem assim eu deixava de me lembrar daqueles julgamentos apertados em que no final uma escola ganha por um pontinho, um quesito, e o pobre do jurado que deu esse ponto é xingado e odiado pela escola perdedora. Com um amigo aconteceu uma coisa assim: ele foi linchado pelos jornais, acusado até de levar grana.

Na Mangueira essa noite foi tudo muito alegre, divertido e civilizado. A organização e a disciplina são impressionantes. Nenhuma confusão, nem bronca, nem reclamação. No momento em que o resultado é anunciado, é como se os sambas perdedores não existissem mais: eles desaparecem da quadra, nem mais um som. Imediatamente, a escola adota o samba vencedor como se todos os componentes o tivessem composto. É um milagre de disciplina e unidade.

Encontro lá, como colega de júri, Oswaldo Martins, diretor presidente da Fundação Mário Covas e um fenômeno inexplicável: o "Oswaldinho", do tempo em que trabalhávamos na Veja, eu aqui e ele lá, é o mais paulista dos paulistas e ao mesmo tempo um mangueirense da gema, uma pessoa fundamental na escola. Isso eu já sabia, mas ainda assim surpreendo. Só para se ter uma idéia: o enredo do próximo carnaval é dele; o campeão de 2002, "sou cabra da peste", lembram-se?, também; o de Chico Buarque, igualmente vencedor, idem. Já fez seis enredos; pelo jeito, todos ou quase todos vencedores.

"No carnaval de agora vamos fazer a avenida se abrir como um mar para a escola passar", me informa, e quando eu arregalo os olhos de espanto, ele faz mistério e responde que ainda não sabem como, "só sabemos que vai ter um mar que se abre".

Ele é o autor da sinopse do enredo dos Dez Mandamentos, toda rimada para facilitar a vida dos compositores, que se inspiraram nesse texto. Começa assim: "Mangueira exalta os valores universais. E busca na História, assim mesmo de memória, no tempo que vai longe, uma bela trajetória. Conta a saga de uma luta contra um ódio de dar dó: o de um rei sem piedade, caricata majestade, e que era faraó. Ramsés! Ó grande Ramsés! O Egito e o mundo se curvam a teus pés".

O faraó exerce a sua prepotência e crueldade sem limites sobre os escravos hebreus, que vão vivendo na lama até que "um dito ecoa em tom promissor: ali vai nascer, crescer e viver o Libertador". Ramsés não perdoa tamanha insolência e manda matar os recém-nascidos, mas um a mãe consegue salvar. "Num cesto flutua, nas águas do Nilo, até ser recolhido num nobre solar: ironia do destino, o lar do menino é o palácio de quem o mandara matar".

O final da saga do menino Moisés todo mundo conhece: ele levando seu povo rumo à terra prometida e chegando ao monte sagrado, onde a palavra de Deus começa a ditar: "São os Dez Mandamentos e os seus fundamentos hão de a todos salvar". A moral da história, segundo Oswaldinho da Mangueira, é: "No Brasil, desde sempre, os povos se irmanam sem ódio ou rancor. Exemplo pro mundo de raro resplendor tens saber profundo - és a pátria do amor".

Oswaldinho estava especialmente feliz com a presença na quadra de cerca de 40 empresários da comunidade judaica de São Paulo que devem contribuir financeiramente para o desfile da escola. Ele espera que a eles se junte uma boa parte da colônia árabe paulista para demonstrar o que o diretor da Casa de Cultura de Israel, Flávio Bitelman, lá presente, disse: "vamos celebrar na Mangueira a harmonia entre as religiões". Não são muitos os países onde é possível essa celebração.


Zuenir Ventura
Publicada no Jornal o Globo em16/10/2002
(É colunista do Jornal O Globo)
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