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O vitorioso Cartola

Hoje faz 19 anos da morte de Cartola. Relembro-o com admiração e saudades e aviso à turma do rádio: se cada uma tocar somente uma obra de Cartola, a lembrança estará garantida.

Para que os morros brasileiros gerem uma flor como Cartola, é necessário superar muita adversidade, anonimato, miséria, chance de desistir ou delinquir, vontade de apenas se revoltar, falta de condições e de repercussão. Alguém que supere todas essas adversidades e se eleve aos olhos e corações do País como autor de obra poderosa, maior, eterna, é prova de que o mistério da sensibilidade humana não tem explicações claras e de que o que é forte e verdadeiro acaba por cumprir o seu destino.

Se você pedir a qualquer pessoa para citar dez músicas do Chico Buarque, ela citará. Para citar dez de Cartola (com exceção de As rosas Não falam, que entrou violentamente no consumo), ela só citará duas ou três. Para que a obra de um compositor como Cartola tenha suplantado as mil barreiras que impedem o florescimento da arte popular, ela precisou originar-se na força de criação e beleza. Foi necessário o seu autor haver sido dotado de capacidade única de persistência e ânsia de prosseguir. É preciso que tenha superado o longo período de anonimato pelo qual passou, sem por isso haver desistido. Aos poucos, e lentamente, o valor intrínseco da obra de arte vai se impondo sem máquinas de promoção, sem tocar nas rádios, sem o apoio dos interesses maiores da indústria discográfica.

Cartola tinha tudo para ter desistido cedo. Tudo lhe era adverso como categoria social e cultural quando começou, mocinho, no samba. Quem iria saber da obra de um mulatinho pobre dos morros cariocas, magro e feioso, de nome errado - Angenor, em vez de Agenor - numa fase em que os morros ainda não tinham sido descobertos como fonte da mais alta inspiração da música e da poética populares? Como resistir ao que ele, órfão de mãe, resistiu em rapazote. Um dia voltar para casa e não mais encontrar seu pai, que o havia abandonado?

Cartola era fisicamente frágil, de fala mansa, nenhuma revolta aparente, mas plena consciência da situação social de seu povo. Foi fiel à sua cultura e a de sua gente. Provindo dos segmentos paupérrimos da sociedade, sem sair de sua cultura, sem abandonar os seus, sem querer fazer uma arte como a das elites, ele foi capaz de criar uma obra maior, respeitada por todos os segmentos da sociedade.

Cartola foi um grande sacerdote leigo desse Brasil real pobre, mestiço e marginal, um mestre de beleza, um guia.


Artur da Tavola
Publicado no Jornal O Dia em 30/11/1999
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